Aumento da presença indígena no ensino superior
O Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo, marca um momento de reflexão sobre o futuro da Amazônia e a ciência produzida por indígenas, que ganha espaço nas universidades e se conecta com suas raízes culturais. Nos últimos dez anos, o número de estudantes indígenas no ensino superior brasileiro cresceu mais de 300%, com mais de 53 mil ingressos em universidades públicas na Amazônia Legal entre 2012 e 2022.
Manoela Karipuna, pesquisadora do povo Karipuna, destaca que a inclusão recente dos indígenas nos espaços acadêmicos representa não apenas presença, mas uma nova forma de produzir conhecimento. Por muito tempo, as histórias indígenas foram contadas por outros. Agora, o movimento visa integrar a ciência ao saber tradicional, em um diálogo necessário diante dos debates globais sobre mudanças climáticas e conservação ambiental.
Contribuições da ciência indígena
A chamada ciência indígena abrange conhecimentos geracionais adquiridos por meio da observação direta da natureza e da transmissão familiar. Este saber é essencial em práticas como o uso de plantas medicinais, o cultivo agrícola e a leitura de ciclos ambientais. Pesquisadores como Emiliano Kaba, do povo Munduruku, exemplificam essa integração ao trabalhar no resgate de fauna e na fotografia de animais silvestres afetados por mudanças ambientais.
Kaba, formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), acredita que a ciência se constrói no encontro entre o conhecimento universitário e a experiência no território, com o objetivo de integrar essas duas fontes de saber. A experiência direta com a natureza urbana e a Terra Indígena Munduruku permite a ele entender os impactos da ocupação humana na fauna e encontrar formas sustentáveis de utilização dos recursos naturais.
Pesquisa sobre mulheres indígenas e saberes tradicionais
Manoela Karipuna também investiga o papel das mulheres indígenas na sustentação da vida nos territórios. Sua pesquisa na UFPA examina práticas culturais como o uso de plantas medicinais e a participação em rituais, explorando como esses saberes são mantidos e transmitidos entre gerações.
A pesquisadora enfatiza a importância da oralidade na preservação da memória e cultura das aldeias. Além disso, ela destaca a crescente presença indígena na produção científica, especialmente a contribuição das mulheres na escrita sobre suas próprias culturas.
Desafios e avanços no ensino superior
Vera Arapium, a primeira estudante indígena a ingressar em um mestrado em seu programa, demonstra como a presença indígena na pós-graduação ainda é recente. Sua pesquisa se concentrou no preconceito linguístico e na revitalização de línguas indígenas como o Nheengatu. Atualmente, ela coordena projetos de fortalecimento linguístico no Pará.
Apesar dos avanços, a permanência dos estudantes indígenas no ensino superior enfrenta desafios significativos. Menos de 10% dos estudantes indígenas na Amazônia concluíram seus cursos entre 2012 e 2022. A dificuldade em lidar com textos acadêmicos em português ou inglês, além das grandes distâncias entre as universidades e os territórios indígenas, são obstáculos mencionados por pesquisadores como Kaba e Karipuna.
Emiliano Kaba e Manoela Karipuna destacam que, apesar das dificuldades, a ciência deve buscar entender o mundo de forma equilibrada, utilizando os recursos de maneira sustentável para as gerações futuras. Este é o papel da ciência no contexto atual e a contribuição que os pesquisadores indígenas estão trazendo para o debate global.
Foto: Reprodução / G1 Para