Clonagem pioneira no Brasil: um marco na ciência
Em um avanço científico significativo, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram a clonagem do primeiro porco na América Latina, um feito que pode revolucionar o campo dos transplantes de órgãos. O animal nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba, São Paulo, marcando um passo crucial no desenvolvimento de suínos geneticamente modificados para fornecer órgãos a humanos, sem provocar rejeição imunológica.
Projeto liderado por cientistas renomados
O projeto de clonagem é capitaneado por Silvano Raia, cirurgião e professor da Faculdade de Medicina da USP, a geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da USP, e o imunologista Jorge Kalil. Iniciado em 2019 em parceria com a farmacêutica EMS, o projeto ganhou impulso em 2022 com a criação do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "A clonagem de suínos é uma das técnicas mais difíceis de dominar para viabilizar o xenotransplante", declarou Ernesto Goulart, pesquisador principal do XenoBR.
Desafios e avanços na clonagem de suínos
Apesar da vasta experiência do Brasil na clonagem de bovinos e equinos, a clonagem de suínos apresentou desafios únicos. "Os porcos são mais desafiadores devido a razões biológicas ainda não totalmente compreendidas", explicou Goulart. No entanto, as semelhanças entre os órgãos de porcos e humanos tornam esses animais candidatos ideais para xenotransplantes. Para evitar a rejeição imunológica, é necessária a edição genética dos porcos, utilizando a tecnologia CRISPR/Cas9 para modificar seu genoma.
Instalações de ponta e futuro dos transplantes
Os porcos clonados estão sendo criados em laboratórios com alto nível de biossegurança, eliminando o risco de transmissão de patógenos aos receptores humanos. "As instalações têm altíssimo controle sanitário porque os órgãos serão um produto médico", destacou Goulart. A expectativa é que os órgãos dos suínos clonados, como rins, córneas, corações e pele, possam atender 94% da demanda do SUS, que realiza a maioria dos transplantes no Brasil.
O impacto estratégico do xenotransplante no Brasil
O domínio da tecnologia de xenotransplante é considerado estratégico para o Brasil, evitando a dependência de tecnologia estrangeira. "Se o xenotransplante se tornar uma realidade fora e não dominarmos essa tecnologia, nosso sistema de transplantes ficará vulnerável", avaliou Goulart. A cidade de São Paulo, com a maior casuística de transplante renal do mundo, pode se tornar a capital do xenotransplante na América Latina, beneficiando também países vizinhos.
O cenário global do xenotransplante
Até o momento, nenhum país obteve aprovação para xenotransplantes, embora estudos clínicos estejam em andamento nos Estados Unidos e China. "Mesmo se a sobrevida de um órgão for curta, ele já possibilita salvar vidas", afirmou Goulart, destacando que o uso de órgãos de porco pode servir como um "transplante ponte" até que um órgão humano compatível esteja disponível.
Perspectivas futuras e acessibilidade
Os pesquisadores esperam que o custo dos órgãos clonados no Brasil seja significativamente menor do que os comercializados por outros países, tornando o procedimento mais acessível. "Queremos difundir a tecnologia para os países vizinhos", finalizou Goulart, ressaltando o potencial do Brasil em liderar essa área inovadora na América Latina.